ANÚNCIOS
As imagens das câmeras corporais da Polícia Militar, recentemente anexadas ao inquérito que investiga a morte da soldado Gisele Alves Santana, revelam um dos bastidores mais desconfortáveis e reveladores do telejornalismo policial de março de 2026.
ANÚNCIOS
O material expõe o dilema quase paralisante vivido pelos agentes de primeira resposta que, ao chegarem ao apartamento no Brás, na região central de São Paulo, viram-se presos entre o dever de preservar uma cena de crime e a pressão invisível da hierarquia militar.
O suspeito, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, agiu com uma desenvoltura que desafiou os protocolos básicos de perícia, protagonizando diálogos que agora servem como evidências de uma tentativa de manipulação do cenário.
ANÚNCIOS
A tensão no local tornou-se evidente quando o tenente-coronel expressou o desejo de tomar banho e trocar de roupa logo após a morte da esposa. Para qualquer ocorrência comum, a proibição seria imediata para evitar a destruição de vestígios biológicos.
No entanto, os áudios mostram a hesitação do tenente que atendia a ocorrência, que chegou a admitir aos colegas a dificuldade de dar uma ordem direta a um superior de patente tão elevada.
ANÚNCIOS
A contradição na fala de Geraldo Neto também saltou aos olhos dos investigadores: se ele alegava que já estava no banho quando ouviu o disparo, por que a urgência em banhar-se novamente antes da chegada dos peritos?
Esse comportamento, somado à insistência em circular pelos cômodos, é lido hoje como uma estratégia para comprometer a integridade das provas. Outro elemento que causou estranheza aos policiais foi a presença de um desembargador,
Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, estava dentro do apartamento. O relatório aponta que Geraldo Neto chegou a pedir que o desembargador entrasse no quarto para observar o local onde ele estaria dormindo.
Isso teria sido uma clara tentativa de validar sua versão dos fatos perante uma testemunha de peso. A Corregedoria da PM, sob o comando do coronel Alex dos Reis Asaka, sustenta que o magistrado estava lá apenas como amigo e não interferiu diretamente.
Porém, o simples fato de um civil, mesmo sendo um juiz, transitar por uma cena de feminicídio antes da perícia técnica, é considerado uma falha grave na cadeia de custódia.
As investigações agora conectam o comportamento de Geraldo no dia do crime ao histórico de abuso psicológico revelado pelas mensagens de celular. O discurso de “macho alfa” e a exigência de submissão da esposa eram a base de uma obsessão.
Ele não aceitava o pedido de divórcio feito por Gisele cinco dias antes de sua morte. A perícia técnica foi decisiva ao desmentir a tese de suicídio, encontrando marcas de violência no pescoço e na mandíbula da soldado, o que indica que ela foi imobilizada.
O documento aponta que o oficial demorou quase 30 minutos para pedir socorro, tempo que teria sido usado para manipular o corpo e limpar a cena do crime. Nesse intervalo, Geraldo ligou para o desembargador.
Atualmente, Geraldo Neto permanece preso e responde como réu por feminicídio e fraude processual. O próximo grande capítulo jurídico deste caso será a definição de competência: a Justiça comum e a Militar disputam quem terá o direito de o julgar.