Detentas de presídio de São Paulo lançaram livro de poesia: ‘De nada adianta ser uma lâmpada apagada se não for pra brilhar’

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Um grupo formado por 45 detentas de uma Penitenciária Feminina da Capital, localizada na Zona Norte de São Paulo, se reúnem toda quarta-feira há três anos para participar do Sarau Asas Abertas. Duas sul-africanas cantam em zulu uma música gospel onde é pedido força a Deus para enfrentar as dificuldades da vida, outras declamavam poesias de sua autoria, algumas acabam cantando composições de outros artistas como Paula Fernandes ou da banda Natiruts. Estas são algumas das atividades feitas pelas detentas durante o sarau que as reúne semanalmente.

Durante todo este tempo que o sarau vem sendo realizado, elas produziram mais de mil poesias. E agora nesta última quarta-feira (29) foi o lançamento do livro reunindo essas poesias. O livro conta com 101 textos feitos pelas detentas, e que foram selecionados pelo coletivo “Poetas do Tietê”, que eram os responsáveis por ministrar as oficinas de poesia que eram realizadas entre as detentas na penitenciaria. A viabilização deste livro de poesia é de autoria do Programa pela Valorização de Iniciativas Culturais, realizado pela Secretaria Municipal de Cultura.

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O último sarau realizado no presídio antes do lançamento do livro, contou com a presença de 35 detentas na ocasião. O encontro que é feito semanalmente, ocorre na capela da penitenciária de 16h30 as 18h30. A participação no sarau é voluntaria e opcional, e não garante nenhum tipo de redução na pena das detentas.

Atualmente 543 detentas estão cumprindo pena no local, segundo foi informado pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). Entre elas, estão 144 estrangeiras, que são de 38 nacionalidades diferentes. A penitenciária é formada por quatro pavilhões, e entre eles um é dedicado somente a estas detentas estrangeiras. Ainda sobre o sarau, metade das participantes são as estrangeiras. Elas são de países como Venezuela, Bolívia, Colômbia, Filipinas, Namíbia, Tailândia e Angola. A maioria delas acabou sendo presa por envolvimento com o tráfico de drogas.

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Jaime Queiroga, funcionário publico que trabalha como voluntário no sarau, comentou que durante as apresentações, usasse três línguas, o português, o inglês e o espanhol, e que no final não falam direito nenhuma das línguas mas que acabam se entendo de alguma forma durante o sarau.

Quando ocorre do barulho das conversas paralelas ficar mais alto do que a voz de quem está se apresentando, um método utilizado por elas para chamar a atenção de volta do público, é utilizando a frase ‘respeito é pra quem…’ e deixando a deixa para que o público complete com a palavra ‘tem’. Ao conquistar a atenção novamente do público, a pessoa que está ao centro do semicírculo formado por elas, começa novamente a recitar a sua poesia.

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A frase utilizada é de Sabotage, cantor de rap, gênero muito utilizado por elas em suas oficinas de poesia na penitenciária. Jaime conta que eles trazem para o sarau, poetas clássicos, como por exemplo Drummond, Álvaro Campos, Vinicius de Moraes mas eles também trazem Paulo D’Auria, Miragaia, Sérgio Vaz que eles chamam de poesia marginal.

O sarau trás para as detentas uma renovação, e uma espécie de fuga da realidade. Como por exemplo para a maranhense Maria Edivânia da Silva de 32 anos que está no local há 7 anos. Ao chegar sua vez no sarau, ela aproveitou o momento para desabafar a respeito da tristeza com que acordou no dia. Ela foi abusada aos 13 anos de idade, e ao contar para sua mãe, ela não acreditou na afirmativa. Então ela se mudou para São Paulo, e virou frequentadora da Cracolândia, onde começou a vender e a usar drogas, e acabou sendo presa.

Este momento do sarau representa uma renovação para as detentas, muitas se sentem mais felizes ao cumprir suas penas no local, através das reuniões para lerem poesias.

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Escrito por Pedro Henrique

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